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Carta a Timo desde a última marcha no Catatumbo

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Camarada, queria simplesmente contar-lhe o que estamos vivendo nesta marcha a Caño Índio.

Dificuldades há muitas, essas, como sempre, nunca faltam na vida. Algumas podem ser solucionadas, outras, ao contrário, ficam de molho.

Tal e como nos escrevia você em sua nota anterior, ao governo lhe ficou grande a logística. O que a gente vê é que o papel do governo nacional é somente orientar, porém os encarregados de cumprir e fazer cumprir ficam com as mãos livres. Perguntaram dados sobre veículos e alimentos necessários para o deslocamento, porém depois manejaram isso a seu bel-prazer. Nos tocou contratar carros, 6 em Caño Tomás e 3 em La Esperanza. E nós mesmos pagá-los. Não sei, camarada, porém vejo, sim, que nos falta que algum integrante nosso marque presença e esteja a par acerca dos gastos do fundo de paz, isso não é claro no mecanismo. Se diz que há um dinheiro para todo o logístico, porém, quem verifica em que se estão gastando esses recursos realmente? Pelo que entendo, só os do governo o fazem. E fica muita dúvida. Não sei se minha opinião será muito curta.

Aqui todos estudamos a sua circular de 3, assim que sabíamos o que íamos enfrentar. Por isso nos preparamos. Por exemplo, sabíamos que refrescos não iam ter por parte do governo, assim que os compramos. Queriam fazer-nos comer para o desjejum uns feijões congelados, os mesmos que nos tinham no caminho para o almoço do dia anterior. Por isso nós mesmos compramos o desjejum. Como sabíamos que onde íamos chegar não tinha nada, arranjamos tábuas, madeira, varas estacas para esticar as lonas e forquilhas, entre outros materiais da montanha.

O que vemos claro é que o governo não cumpre, porém quer, sim, que nós cumpramos como está escrito, sabemos muito bem que são assim. De todas as maneiras, se vê muito ânimo na gente nossa, e respaldo na maioria, ainda que nos preocupa pensar que isto vai se pôr feio mais adiante, e nos comecem a descumprir todos os acordos. Essa é a sensação que temos.

A ideia que temos aqui é a de avançar o mais rápido possível na construção das ZVTN, não vá ser que chegue o mês de maio e não tenhamos podido estreá-las. Isso é mais ou menos um esboço do feio. Agora lhe relato as coisas que à guerrilheirada nos dão muito ânimo e moral.

Se trata do respaldo do povo, se pode dizer de todo o Catatumbo. Nos acompanharam do princípio ao fim durante o deslocamento, em alguns lados nos prepararam a comida, pernoitaram nos esperando nos povoados. Nos fizeram sair as lágrimas com essas recepções, com sua forma de expressar em fatos e palavras o que sentiam. Em algum momento um senhor entrado em anos nos disse com voz emocionada: “Hoje viemos acompanhá-los, porém se o governo não lhes cumpre, aqui viremos outra vez a acompanhá-los, para levá-los aonde os trouxemos”.

Isso nos despertou clara a ideia de que, se o governo descumpre, é verdade, o povo nos acompanhará a sair daqui e voltar às armas, se por desgraça acontecesse. Esta é a hora, e há mais ou menos 300 campesinos num acampamento montado por eles mesmos a 80 quilômetros da ZVTN. Esse é o povo, o queremos muito e nos sentimos orgulhosos do sacrifício que os guerrilheiros fizemos por eles. Eu ficaria contente na vida se por nossa luta e por estes acordos se resolvessem muitas das necessidades que padecem neste Catatumbo. De verdade, eles merecem, camarada, é a opinião que temos a maioria aqui.

Frente 33

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