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Tierra Grata, as boas-vindas à Paz

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Escrito por Gabriel Ángel

No ano de 1986 exercia minha profissão de advogado na cidade de Valledupar. Na época me preparava também para o exercício político na União Patriótica, até o ponto de ter sido escolhido para encabeçar a lista ao Senado pelo novo movimento. Simultaneamente havia figurado como candidato à Câmara de La Paz, o afetuoso e acolhedor povoadozinho em que vivia com minha bela esposa e minha linda menina de menos de um ano de nascida.

Perdi por um voto a cadeira à Câmara e, quanto ao Senado, alcançamos um pouco mais de quatro mil sufrágios no estado do Cesar, votação insuficiente para ganhar o posto, porém profundamente significativa tratando-se de um movimento recém-nascido, de esquerda ademais, e sobre o qual pesava o estigma de braço político das FARC, anátema com o qual se pretendia aterrorizar a população para que não votassem em nós.

Contamos apenas com escassos meses para a campanha, questão na qual éramos absolutamente inexperientes e para a qual carecíamos de recursos econômicos. Trabalhamos entusiasmados na candidatura presidencial do doutor Jaime Pardo Leal, que tinha sido meu professor de direito penal na Universidade Nacional e quem impressionou ao país por sua coragem política e pessoal. Jamais imaginamos o que se nos viria por cima disso.

Vivia então em La Paz, a terra das almojávenas e da dinastia López, músicos de estatura excepcional que dividiram em duas a história da música vallenata ao acrescentar a seu gênio a Jorge Oñate, a melhor voz em toda a história desse folclore. Ali o gosto pelo acordeom só admitia a excelência, e ensinava a apaixonar-se por ele, pela poesia de seus cantos, pela alegria de suas farras, pelas histórias que o folclore convertia prodigiosamente em arte.

Sabia que La Paz tinha a corregedoria de San José de Oriente, na serrania do Perijá. Porém nunca havia ido conhecê-la. Foi a política que me levou a subir até ela numa manhã de sábado, com o propósito de realizar uma reunião com simpatizantes do movimento. Se tratava de explicar-lhes em que consistia este e ganhá-los para a causa. O procedimento que seguia era a constituição de uma Junta Patriótica, com seu presidente, secretário, fiscal tesoureiro e demais membros.

Estas juntas eram a base de nossa organização e ao mesmo tempo nossos núcleos de campanha. A ideia pegou com força. Tive que me habituar a subir quase todos os fins de semana, com o mesmo propósito da primeira vez. Sempre surgiam convites para outros bairros da corregedoria, e inclusive para veredas distantes, às quais havia que subir por caminhos em mal estado em carros caindo os pedaços. A gente nos recebia com agrado e militava entusiasta.

San José era habitado por pessoas do altiplano andino, emigrantes em sua maioria de Ocaña, El Carmen, Ábrego e San Calixto, entre outros povoados do Norte de Santander. Colonos que haviam aberto chácaras e trabalhavam com suas mãos a terra para torná-la produtiva. Campesinos rudes, homens e mulheres que amavam seu trabalho material e progrediam lentamente. Logo me dei conta de que a acolhida do povo para o projeto político era muito maior que na sede de La Paz. 

Abaixo, no plano, os de San José tinham fama de violentos, de bravos para brigar com punhal, de bêbados pesados. Ainda ficavam resíduos da bonança marimbera e das mortes por esse negócio maldito ocorriam ainda com certa frequência. Claro, não só na serrania como também no plano. La Paz era a porta de entrada para a Guajira, e de lá chegavam ao Valle todo tipo de histórias de guerras familiares e vinganças. Porém parecia se temer mais à gente dos cerros.

Questão de discriminação, sem dúvida. Os cachacos eram gente boa, trabalhadora, amigável e decente. Duros, sim, quando algo os afrontava. E tinham ademais uma bela característica. Ao contrário do plano, onde suas famílias zelavam rigorosamente das garotas e lhes impunham insuportáveis proibições, na serrania as mulheres jovens, solteiras, separadas, viúvas ou inclusive casadas gozavam de maior liberdade, eram plenamente muito mais donas de suas vidas.

Me fascinei subindo a San José de Oriente porque, uma vez que o camponês se elevava pela rústica estrada, se começava a divisar em todo seu esplendor o vale do rio Cesar. Ao alcançar a curva que indicava o começo da descida ao valezinho onde estavam San José e Betania, se podia contemplar estes dois povoadinhos como se fossem manjedouras encravadas na serrania, ao tempo que a oeste, do outro lado do vale, se erguia majestosa a Sierra Nevada de Santa Marta.

A terra do caminho estreito era ocre e a paisagem que a rodeava brilhava todas as variantes do verde numa cordilheira de encanto. Atrás, como gigantesca deusa tairona, a branca coroa de neve que revestia os enormes cerros da serra, parecia sorrir para os humanos que habitavam aquele território iluminado pelo sol radiante. O embriagador azul do céu em que apenas assomava uma pequena nuvem à distância se encarregava de cobrir tudo com seu brilho.

Contava com bons amigos em San José. Como o dono da farmácia dos quatro jotas, um avô comunista cujos filhos se somaram entusiastas à União Patriótica. Ou como o Tile Felizola, um campesino alto e robusto, de bigode frondoso, que não se cansava de me recomendar que, se alguma vez tivesse um dinheiro disponível, não pensasse duas vezes para comprar uma chácara lá. Ou como @s militantes de nossa política que tanto afeto nos brindavam.

Com vários deles conversei em casinhas de sábado na noite. Relembro que a Polícia confiscava nas revistas obrigadas da entrada tantas facas como se podia imaginar. E que, ainda assim, alguns conseguiam ocultá-las para introduzi-las de algum modo nos bailes. Porém nunca presenciei uma briga sangrenta. Era questão de cultura, explicavam alguns, a faca era tão indispensável para um homem como o cinto com que se atava a calça.

Aquelas visitas a San José terminaram. Talvez a última foi quando fomos agitar a paralisação campesina do nordeste e o que se chamou a tomada de Valledupar, quando uns sete mil campesinos da serrania ocuparam pacificamente a praça Alfonso López durante uma semana, para exigir do governo vias, escolas, saúde, créditos, o de sempre. Na época a UP vinha sendo massacrada. Após essa paralisação de 1987, se desencadeou o terror em todo o Cesar.

Mataram a Toño Quiroz, nosso vereador em Becerril, e ao doutor José Francisco Ramírez Torres, que tinha sido porta-voz das comunidades na mesa em que se resolveu a [questão da] paralisação. Sobrevieram as ameaças, os rastreamentos, os assédios do exército e da polícia, os rumores venenosos. Dirigentes e militantes da União Patriótica eram baleados em todo o país. Logo cairiam Marcos Sánchez Castellón, em Santa Marta, e Jaime Pardo Leal, perto de Bogotá.

Não houve outro caminho que marchar para a Serra para salvar a vida e continuar a luta como guerrilheiros. Para trás ficaram nosso mundo, nossa família, a companheira e a filha. Foi tanto como se houvéssemos morrido e voltar a nascer, num ambiente desconhecido e tosco, num mundo em que os livros e a alegria foram substituídos pelo incessante canto dos grilos nas noites escuras em vigília sob a espessa montanha. Um pesadelo obrigado.

Trinta anos depois, em Havana, observo umas fotografias da serrania do Perijá que recebi via internet, sacadas do mesmo ângulo em que se divisava o lugarejo estendido como uma manjedoura no pequeno vale. Os verdes são os mesmos, como o vermelho da rodovia. A um lado dela há uma barreira com as imagens de Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas, na qual se pode ler Bem-vindos a Tierra Grata, território de paz. La Paz é a mais bela das vitórias.

Sinto um golpe no peito. São as mesmas paisagens que admirei antigamente, juro que consigo aspirar a frescura do ar frio que substitui ao do plano. Numa das fotos distingo uma menininha, vestida com traje rosa e com os braços em alto, sorridente ao pé da barreira e inconsciente de seu significado. Me dizem que é minha neta, a filhinha da minha menina, num passeio que fizeram a San José de Oriente. Examino-a comovido. É certo, se parece com ela, Bem-vinda A Paz.

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