Sobre Nós   -   Contato    EnglishItalianoAlemanEspañol

RSS Atualidade

A participação das mulheres: uma chave para a construção de paz com justiça social e ambiental

1
0
1
s2smodern
powered by social2s

"É uma incoerência cosmogônica defender o território terra
se ali há mulheres maltratadas, violentadas pelo patriarcado"
Lorena Cabnal

Este março se tinge de força e resistência, pois, somado ao dia internacional das lutas das mulheres, comemoramos um ano desde a semeadura de Berta Cáceres, e hoje seu legado em defesa das águas livres, os territórios soberanos e as lideranças das mulheres continuam se fortalecendo em numerosos territórios.

À frente do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras – COPINH- Berta enfrentou o sistema capitalista-patriarcal, e aportou com sua tenacidade a diversos processos organizativos mais além das fronteiras. Apesar deste importante trabalho, Berta foi criminalizada, por distintos atores, e posteriormente assassinada a 3 de março de 2016.

Seu atuar se enquadrou numa infatigável defesa da natureza e em enfrentar o modelo de dominação atual, onde os corpos das mulheres e os bens comuns são convertidos em objetos do mercado. A luta de Berta é um chamado a que nossos questionamentos aos modelos de desenvolvimento baseados no extrativismo a nas desigualdades sociais passem também por um questionamento dos papéis de gênero, da identificação e transformação das práticas patriarcais que impedem uma participação equitativa e que deformam a construção de poder popular.

Como Berta, nos diversos caminhos de defesa da natureza as mulheres temos jogado historicamente um papel fundamental, pois, apesar do aprofundamento do extrativismo e da violência que este implica, nossas iniciativas de resistência se mantiveram e se fortaleceram. Em nossos processos as mulheres temos questionado o modelo de desenvolvimento, as relações de poder configuradas a partir do gênero e temos construído propostas de defesa territorial com base no reconhecimento das mulheres como sujeitos políticos que historicamente temos contribuído para grandes transformações.

Situações de criminalização, como as que Berta teve que passar em seu caminho, enfrentam-nas também lideranças femininas colombianas, já que o extrativismo implica o aprofundamento do patriarcado, que se traduz em condutas violentas que reprimem e obstaculizam sua participação ativa nos espaços de tomada de decisões e incidência política. Esta situação se faz evidente em tempos recentes, pois fomos testemunhas do assassinato de várias mulheres reconhecidas por seu trabalho para a construção de paz, a defesa do ambiente e dos direitos humanos: María Fabiola Jiménez, Martha Pipicano, Cecilia Coicué, Adelinda Gómez, entre outras.

Agora, bem, frente a este panorama, é pertinente mencionar que também tem havido esforços de distintos setores para consolidar propostas de participação, onde as vozes das mulheres são ouvidas e levadas em conta, onde se coincide com o que afirmava Camilo Torres Restrepo: “Insistamos no que nos une e prescindamos do que nos separa”. Entre estas numerosas iniciativas se incluem propostas organizativas como Força de Mulheres Wayúu, Vicaría do Sul, Movimento Rios Vivos, Coletivo pela proteção da Província de Sugamuxi, AMMUCALE [Associação Municipal de Mulheres Campesinas do Município de Lebrija], Mobilização Mulheres Afrodescendentes pelo Cuidado da Vida e dos Territórios Ancestrais [Cauca], Cinturão Ocidental Ambiental, Rota pacífica das mulheres, COCOMACIA [Conselho Comunitário Maior da Associação Campesina Integral do Atrato], o processo de mulheres do Comitê de Integração do Macizo Colombiano e muitas outras iniciativas históricas que desde a organização comunitária e a articulação local e regional têm dado passos importantes na incidência política de e para as mulheres, e que têm se enfrentado aos poderes hegemônicos a partir da força de sua liderança e seu trabalho de base.

A propósito do acima citado, não é demais examinar: como a construção de paz com justiça social e ambiental gera transformações em nossas relações como seres humanos e com a natureza? Esta pergunta, mais que respostas concretas, gera desafios que não só têm o governo, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia [FARC] e o Exército de Libertação Nacional [ELN], como também temos cada uma das organizações que defendemos a natureza e os tecidos territoriais.

Assim, fazemos um chamado a que, como Berta, María Fabiola, Martha, Cecilia e muitas outras pessoas, sejamos conscientes de que as lutas das mulheres não só implicam uma mudança referente à igualdade de gêneros como também que é uma aposta por construir uma sociedade harmoniosa, inclusiva, longe da cisão entre natureza e cultura, onde todas e todos tenhamos voz e participação.

Finalmente, convidamos a que de 2 a 8 de março nos mobilizemos para denunciar os responsáveis pela violência contra as mulheres e nossas comunidades. Que desde nossos movimentos, organizações e a título pessoal acompanhemos ao COPINH e multipliquemos seu caminhar.

Tradução: Joaquim Lisboa Neto

1
0
1
s2smodern