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Entrevistas Comandantes das FARC-EP (I)

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Isabela Sanroque, Iván Merchán e Carlos Antonio Lozada

Depois de vários intentos frustrados que a Colômbia viveu para alcançar a paz, nos encontramos ante um processo que abre as portas para começar a transformar as dinâmicas sociais que vieram determinando o rumo político do país. Neste sentido, o atual processo poderia ser enunciado como o mais próximo a chegar a bom termo com a insurgência armada das FARC-EP. No referido marco os múltiplos atores sociais e políticos nos territórios tomaram protagonismo pelas diversas perspectivas de construção de paz. No dia 9 de novembro passado vários integrantes da Equipe Colombiana de Investigação em Conflito e Paz, ECICP, nos deslocamos à vereda El Diamante, em San Vicente del Caguán – Caquetá, com o objetivo de entrevistar a vários comandantes e contribuir no reconhecimento de todos os pontos de vista dos atores, entre estes os da insurgência.
 
Em seus relatos encontramos, ademais de histórias e vivências pessoais, a leitura que esta organização faz em torno a temas de grande importância na conjuntura atual. Se teve a oportunidade de conversar acerca do processo do desminado com o comandante Carlos Antonio Lozada, membro do Secretariado; com o comandante Iván Merchán, comandante da Frente Yarí e membro do Estado-Maior de Bloco, sobre a conjuntura do acordo; enquanto com a comandante Isabella Sanroque, do Bloco Oriental, o diálogo se orientou sobre a memória histórica do conflito.
 
Convidamos a ler estas opiniões com a ideia de construir um critério próprio sobre as mesmas e desta maneira continuar somando esforços para intercambiar ideias e perguntas sobre os temas que a seguir são abordados, assim como para gerar ferramentas para a análise da dinâmica política que hoje, mais que nunca, necessitam de uma presença ativa da sociedade em geral.

Entrevista Nº 1

Comandante Carlos Antonio Lozada

Tema central: Desminado Humanitário

Durante a discussão sobre o ponto 4 “Solução ao problema de Drogas Ilícitas” do Acordo Geral para a Terminação do Conflito e a Construção de uma Paz Estável e Duradoura, se estabeleceu que no marco da proteção às comunidades e a garantia da vida e do bem-estar da população rural o Governo Nacional se compromete a pôr em marcha um programa de desminado e limpeza das áreas afetadas por Minas Anti Pessoal [MAP] e Munições Sem Explodir [MUSE], propósito no qual as FARC-EP também participarão como parte de um compromisso mútuo do fim do conflito.

A partir do referido consenso se acorda em março de 2015 a execução de um plano piloto de desminado humanitário na vereda do Orejón, do município de Briceño em Antioquia e posteriormente na vereda de Santa Helena, do município de Mesetas no Meta. As pilotagens tinham por objetivo o desenvolvimento de ações humanitárias de construção de confiança entre as partes, assim como a prova de trabalho mancomunado entre a Força Pública e a guerrilha das FARC-EP em cada um dos procedimentos operacionais rigorosos que a descontaminação de artefatos explosivos merece.

O processo de construção de paz requer que a sociedade participe em cada uma das ações que tenham a ver com a construção territorial, entre eles o desminado, o qual requer a contribuição ativa da comunidade a partir do que se denomina como Enlace Comunitário, com o fim de possibilitar uma análise certeira de risco e potencialidades de acordo com as necessidades particulares de cada território, uma sinalização acertada das zonas contaminadas e a efetiva elaboração e execução de planos de investimento que permita atender as vítimas da confrontação através dos referidos artefatos.

O Comandante Carlos Antonio Lozada é quem esteve à frente de todo o desenvolvimento da Subcomissão Técnica do ponto 3 “Fim do Conflito”, acerca do Cessar-Fogo e de Hostilidades Bilateral e Definitivo, e que junto com Edison Romaña e Matías Aldecoa vêm trabalhando o tema do desminado com o Governo Nacional; portanto, a necessidade de escutar suas opiniões em relação às potencialidades e aos obstáculos que a descontaminação e liberação de territórios apresentam.

ECICP: Comandante, no marco do processo de Paz se acordou fazer duas pilotagens para o desminado, um em Briceño e outro em Mesetas; que passou com estas pilotagens? No entendido de que a substituição de cultivos em Briceño não se realizou e sobre Mesetas não se voltou a informar.

C.A.L: A propósito, primeiro devemos precisar que os dois projetos piloto de descontaminação do território de restos explosivos são algo diferente ao de substituição voluntária de cultivos; ainda que ambos se enquadram dentro dos denominados “gestos de desescalada”. No caso dos projetos de descontaminação do território de explosivos, o que podemos assegurar é que foram exitosos, ainda que não isentos de problemas; como que as obras sociais estipuladas nos mesmos não se realizaram, ou foram feitas com muito atraso. No entanto, queremos destacar que os projetos piloto jogaram um papel significativo na construção de confiança entre as partes e deles podemos extrair uma série de ensinamentos para a etapa da implementação dos acordos, quando a descontaminação do território cobrará uma grande importância.

ECICP: No comunicado número 2, posterior ao plebiscito, se diz que se mantém as medidas humanitárias de construção de confiança; isso quer dizer que se têm montadas mais pilotagens? Se não é assim, quais são as razões?

C.A.L.: A ideia é poder levar a feliz termo as medidas e os acordos humanitários já combinados, toda vez que vários deles, como por exemplo a saída dos menores, não se pôde cumprir porque a cada passo nos tropeçamos com os obstáculos próprios da burocracia e a falta de compromisso por parte do governo, que para o público tem um discurso a respeito deste tipo de medidas, porém no momento de concretizá-las isso não se traduz em boa vontade para sua implementação.

ECICP: Entendemos que o desminado é um compromisso ético e político com a paz e a sociedade colombiana. Qual será a participação direta das FARC no desminado? Se articularão com os operadores? Criarão sua própria organização?  

C.A.L.: Nós temos afirmado de maneira oficial ao governo nossa vontade de contribuir com a descontaminação de território de restos explosivos de guerra, para o qual estamos considerando a constituição de uma corporação que em acordo com outras organizações dedicadas a esse trabalho humanitário possa se comprometer nas distintas fases que tem esta tarefa.

ECICP: Como vocês veem o papel das comunidades em todo este processo de descontaminação dos territórios e seu posterior desenvolvimento?

C.A.L.: A experiência dos projetos piloto nos demonstrou que para o êxito deste tipo de missões é fundamental a vinculação das comunidades nas etapas de estudo no técnico e educação no risco, porém, mais além disso, consideramos que o verdadeiramente importante é que esses projetos cheguem lado a lado com desenvolvimento socioeconômico para os territórios; algo que implica a construção de infraestrutura social, rodovias, pontes, escolas, postos de saúde etc., porém também que seja a oportunidade para que o Estado marque presença com a implementação dos acordos através da Reforma Rural Integral, mediante a entrega de terras, sua titulação, créditos, planos de substituição voluntária de cultivos de uso ilícito, entre outros benefícios que as comunidades que historicamente têm habitado estes territórios onde se desenvolveu o conflito devem receber. Para conseguir tudo isto, o determinante será a organização e a mobilização das comunidades; como o demonstrou a experiência.

ECICP: Que lhes parece a certeza que, depois de terem liberado os territórios, não se desenvolvam de acordo com os interesses produtivos comunitários? Por exemplo, a chegada de mega projetos.

C.A.L: Aqui também devemos lançar mão da experiência recente, que nos demonstra que quando as comunidades assumem a responsabilidade de se organizarem e mobilizarem pela defesa do território, das riquezas naturais, do meio ambiente e da economia campesina, se pode conquistar vitórias importantes frente à voracidade das grandes companhias ligadas aos mega projetos. Santurbán, La Colosa, El Quimbo, La Macarena, são alguns desses exemplos recentes. Não há força maior, em capacidade de deter essa voracidade, que a do povo organizado.

ECICP: Como vocês veem que já se esteja começando a fazer desminado sem a participação direta das FARC?

C.A.L.: Todo esforço que se faça nesse sentido é bem-vindo. Agora, bem, a firma dos acordos e o compromisso das FARC com essa tarefa em específico aporta um elemento novo que é fundamental, o conhecimento e a experiência dos combatentes guerrilheiros torna muito menos arriscada essa tarefa ao tempo em que aumenta a eficácia e a eficiência do trabalho de descontaminação, o que, ao final, deve significar uma poupança enorme de tempo, de recursos e, o mais importante, talvez, de vidas humanas.

ECICP: Que opinião lhes merece que existam prevenções em alguns territórios para fazer o desminado pela possível entrada de estruturas paramilitares?

C.A.L: O conflito colombiano é algo sumamente complexo, que se expressa de múltiplas formas, o paramilitarismo é uma delas; por isso os acordos devemos avaliá-los em sua integralidade, não como compartimentos separados. No ponto 3 Fim do Conflito se contempla uma estratégia multidimensional para combater este fenômeno; e ali o Governo vai ter que pôr à prova sua vontade política mediante a implementação do acordado. Em todo caso, corresponde novamente ao povo ser o garantidor do cumprimento mediante um eficaz trabalho de fiscalização, denúncia e mobilização, no caso que este ou outro compromisso não seja cumprido. Está também todo o acordado em matéria de verificação com a presença da comunidade internacional, que é algo igualmente importante.

ECICP: Como se conseguirá estabelecer um capítulo verídico sobre a utilização deste tipo de artefatos explosivos no Informe da Comissão da Verdade?; pois há zonas nas quais as forças públicas são quem desminam e há outras onde as comunidades deram a certeza de que estão recolhendo todos estes artefatos de maneira extraoficial.

C.A.L: Efetivamente isto vem ocorrendo. Desde o início do processo o Governo se empenhou a fundo em construir a matriz de um único responsável pelo conflito; no entanto, hoje em dia esse tipo de pretensão já não tem espaço, sobretudo a partir do informe da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas; em que pese os distintos enfoques que contém, todos são conclusivos na existência de uma responsabilidade múltipla, na qual o Estado, por sua condição mesma, é o máximo responsável. Essa verdade é inquestionável e certamente, na medida em que a Comissão da Verdade e o Tribunal Especial, acordado na Jurisdição Especial para a Paz, entrem a cumprir seu trabalho, a verdade de todo o ocorrido irá florescendo.

ECICP: Que se necesita para que haja um processo de desminado exitoso e integral?

C.A.L: Primeiro que tudo, que o acordo comece a etapa de implementação. Em segundo lugar, que haja um compromisso e uma vontade política por parte do Governo para facilitar o credenciamento de distintas organizações dispostas a participarem nesta tarefa humanitária, o que, ao final, deve permitir que seja o interesse humanitário o que esteja no centro dos esforços, de todos os que assumimos o compromisso ético e político de reconstruir o país.

Entrevista Nº 2

Comandante Iván Merchán

Tema central: Conjuntura do acordo de paz posterior ao plebiscito

No dia 2 de outubro passado, se realizou o plebiscito para referendar o acordo geral firmado entre a insurgência das FARC-EP e o Governo Nacional, dia no qual 34.899.45 colombianos deviam acercar-se a fazer uso de seu direito político. O resultado final da consulta é a estreita vitória do NÃO, com um total de 53.894 votos sobre o SIM, com uma abstenção total de 62%. Este cenário muda o rumo das negociações e pausa a implementação dos acordos, obrigando o governo nacional a estabelecer um diálogo com os setores que embandeiraram a negação do acordo, para posteriormente se sentarem com os delegados das FARC-EP e dirimir as novas propostas.

O Comandante Olivo Merchán Gómez, pseudônimo Iván Merchán, mais conhecido como o Loco Iván, faz parte do Estado-Maior do Bloco Oriental das FARC-EP. Iván Merchán, oriundo do município de Lejanías Meta, perdura 30 anos na organização guerrilheira, fugiu duas vezes da prisão e sobreviveu a vários bombardeios contra ele. Sua grande semelhança com o extinto Jorge Briceño, mais conhecido como o Mono Jojoy, lhe ocasionou no passado ser alvo de várias operações militares; em seu corpo se encontram várias marcas da guerra, da qual afirma não pediu ser parte.

Ao longo da conversação o comandante Iván se mostrou otimista sobre o processo, estendeu o convite ao povo colombiano a se apropriar dos acordos e a exigir seu cumprimento. Ainda que sua leitura é favorável, o temor do descumprimento está presente com a desconfiança na repetição do extermínio da União Patriótica.

ECICP: Com os últimos acontecimentos do país como o resultado negativo do plebiscito e a confissão do gerente de uma das campanhas do NÃO frente às estratégias que utilizaram para enganar aos cidadãos, não lhes faz pensar que uma futura campanha política do partido que surja das FARC não vai ser fácil?

I.M: Em meio do processo e de todas as situações que se apresentam, se analisam muitos cenários, nós somos uma organização político-militar; sempre fizemos política. A diferença é que agora vamos fazê-la dentro da legalidade e, ainda que não vai ser fácil, porque o Governo sempre teve uma maquinaria onde trata de se opor e calar as ideias dos movimentos minoritários, nós o que pensamos é convencer com a verdade, devemos estar à altura dos desafios que temos doravante e como organização vamos fazê-lo e o faremos ao lado do povo colombiano.

ECICP: Quando os acordos comecem a se implementar, depois da reestruturação que vão fazer pelo resultado negativo do plebiscito, que expectativa tem você frente à deixação das armas?

I.M: As armas para nós representam uma ferramenta para nos defendermos, nunca as consideramos o meio adequado para entrar em política. Tivemos que usá-las porque o Estado nos obrigou a fazê-lo, então fazer a deixação delas é um passo que se deve dar e se fará dentro dos termos estabelecidos no acordo. O povo, o Governo e o Estado devem entender que deve ficar abolido o uso das armas em política.

ECICP: Você crê que houve excesso de confiança por parte das FARC ao realizarem a X Conferência antes da firma do acordo e de conhecerem os resultados do plebiscito?

I.M: Não, nós sempre buscamos a paz e as conferências sempre se realizaram sob esta ideia. Desta vez se fez em meio de um ambiente de paz e se deu um respaldo unânime aos acordos alcançados. Os documentos e as conclusões que dali saíram facultam para seguir buscando a paz, ou em dado caso, se o Governo e o Estado nos levam à continuação da guerra, que esperamos não seja assim, temos tudo dado na Conferência, para uma coisa ou para outra.

ECICP: Considera necessário realizar uma nova Conferência para explicar à guerrilheirada todas as mudanças e ajustes que se lhe façam ao acordo?

I.M: Não, não creio. Na conferência se traçam regras gerais e aí se fazem planos baseados na situação que se vive; então, o que lhe disse anteriormente, haja paz ou se o Governo nos leva a continuar nesta guerra, os documentos estão dados para isso. Nós estamos direcionados pelo Secretariado, pelo Estado-Maior Central, os Blocos, as Frentes, Companhias, Colunas, Guerrilhas e Esquadras; tudo o que vai surgindo vão nos informando, então não vejo conveniente uma nova Conferência porque já se traçaram umas linhas gerais para a paz ou para a guerra caso o Governo não cumpra.

ECICP: Que pensa com tudo o que vem passando no país? Há uma incerteza na sociedade, há temor pelo que possa passar, porém também há otimismo; o que dizer ao povo?

I.M: Nós somos conscientes de que a paz não tem retrocesso, porém aqui é importante que o povo colombiano entenda que isto já não depende das FARC, nem do Governo, depende do empoderamento que o povo faça dos acordos e que faça cumprir todo o acordado, porque o povo crê que é um acordo para as FARC e não é assim.

Do povo depende que os acordos não fiquem no papel e que comecem a ver as transformações sociais que o país tanto necessita. Entendemos que a oligarquia investe muito dinheiro em campanhas midiáticas e dê desprestígio para enganar ao povo e que portanto os desafios aos quais nos enfrentamos no campo eleitoral não são fáceis, porém assumiremos os desafios que venham com compromisso e altura, é aqui onde isto se começa a ficar bom, porque temos que convencer, porém o faremos com a verdade.

ECICP: Já para finalizar, que projeto produtivo vai desenvolver após o trânsito à vida civil?

I.M: Os projetos que se desenvolvem são em benefício da comunidade. Temos que esperar que os acordos cheguem a um feliz termo e dependendo das ajudas que o governo e a comunidade propiciem, aí sim veremos que projeto realizar. Eu faço parte de uma organização e estou à disposição das orientações que o Secretariado e o Estado-Maior acordem, as tarefas que nos destinem são as que vamos cumprir. Como pessoa não aspiramos a um cargo ou outro, alguém o que pensa é em continuar neste processo, na luta e contribuir na consolidação e materialização da paz.
 
Entrevista Nº 3

Comandante Isabella Sanroque

Tema central: Recuperação da memória histórica do movimento armado

O conflito armado interno em Colômbia, o mais extenso do hemisfério ocidental, afetou diversas populações durante quase meio século de existência, período no qual os enfrentamentos entre os grupos insurgentes, o Estado colombiano, o narcotráfico e o paramilitarismo geraram níveis de vitimização preocupantes e histórias por esclarecer.

As reclamações de uma Colômbia diferente começaram com as reivindicações de famílias campesinas que vinham do Sumapaz e do oriente do Tolima buscando uma vida digna desde meados do século XX. Um grupo de 48 campesinos em 1964 decide se organizar em autodefesas campesinas; o então presidente Guillermo León Valencia bombardeia Marquetalia, povoado onde viviam comunidades e o grupo de insurgentes, obrigando estes grupos a se mobilizarem para a montanha e começarem a estruturar a guerra de guerrilhas. Vários foram os intentos de paz, no entanto todos estes intentos se tornaram frustrados. Esta história do século XX merece um especial tratamento com o objetivo de entender os matizes que fizeram possível a configuração das dinâmicas de violência que o país vive. É fundamental começar a ouvir as histórias não oficiais que não foram contadas pelas dinâmicas mesmas da guerra.

ECICP: Segundo sua visão, como se poderia reconstruir a memória histórica da insurgência das FARC?

I.S: Bem, pois, saudar à Equipe de Investigação. O primeiro que teria que dizer a respeito do tema da memória histórica é que para nós, evidentemente, é fundamental que toda a tradição e toda a história que levamos em cima como organização seja conservada, porque, ademais, consideramos que a história da Colômbia no século XX é impensável contá-la sem a participação do que são as FARC; porém contar a história real, não a história que até agora foi tão distorcida e tão manipulada. Então, essa memória histórica nós consideramos que é o ponto de partida para recuperar todos esses elementos que foram causadores do conflito da história em Colômbia.

A partir da implementação eu considero que na estratégia de comunicação deve haver uma série de arquivos que possam ser visíveis ante a opinião pública. Nós já estamos trabalhando de fato nessa matéria, em recriar e dinamizar uma série de elementos que possam ser vistos pela sociedade, por exemplo, biografias e arquivos audiovisuais; nós temos muito material que não se conhece, tudo isso inicialmente vai se pensar para uma página web, já temos uma em redes sociais, uma página, porém vamos ter algo específico onde se retome todo o tema de nossa memória, isso vai ser muito importante porque na realidade atual as pessoas dentro de sua pesquisa acorrem às redes.

Também consideramos que na educação deve haver cátedras específicas onde se conte a história real, essa vai ser também uma das lutas que vamos travar. Temos a proposta da instalação de alguns museus nas regiões e nos territórios, instalar ali alguns elementos que têm um significado importante para nós a partir da guerra, coisas não tradicionais. Também consideramos que há que fazer com que alguns cemitérios ou monumentos tenham um realce, é a memória de uma quantidade de gente que morreu dando a vida por uma causa, por seu país, merecem ser recordados.

Nós, dentro de nosso elemento político, aspiramos a que haja uma quantidade de instâncias às quais possamos recorrer para precisamente reivindicar a memória de toda essa gente que morreu.

ECICP: Nesse sentido, e ampliando a resposta anterior, para você quais seriam os elementos mais representativos da história desta guerrilha e de sua própria história nas fileiras das FARC?

I.S: Bem, para nós como coletivo organizado, o tema da origem das FARC em Marquetalia é muito simbólico. Eu creio que a história e o que é realmente a tradição campesina que tem nossa organização, onde somos obrigados a irmos à montanha a pegar as armas para nos defendermos, é a resistência que queremos contar. Também a de uma quantidade de pessoas que foram muito importantes no desenvolvimento deste processo em Colômbia, entre esses logicamente, pois, seria inevitável não mencionar ao camarada Manuel, ao camarada Jacobo, a Alfonso Cano e a Mariana Páez. Há camaradas que há que fazer-lhes uma reconstrução de suas vidas, de suas histórias, de suas trajetórias, de sua passagem pela revolução em Colômbia.

À maneira pessoal, eu creio que a intensidade da guerra que Plano Patriota e o Plano Colômbia implicaram é uma história que há que contar não somente em termos quantitativos de quantas baixas tivemos ou quantas baixas tiveram, senão que há uma quantidade de crônicas dentro da guerrilheirada que faz parte do que foi o enfrentamento tão terrível em meio das bombas, em meio das fustigações, em meio das operações; o valor que tem a guerrilheirada ante todas essas operações militares, eu creio que isso há que contá-lo com muita dignidade e com o valor que se merecem.

ECICP: Em relação a esses lugares dos quais de repente conheceu ou nos quais esteve, como Marquetalia, que outros espaços sugere você como lugares de memória?

I.S: Sim, casualmente eu tive em mente e me parece que é como uma das dívidas que tenho com a história. Propus e reiterei minha proposta e penso que vai ser acolhida em algum momento, a área da frente “Combatentes do Yarí”, que está entre a Macarena e San Vicente del Caguán, deve ser considerada como um lugar de memória, aí há uma série de lugares que foram habitados na época da desmilitarização pelo camarada Manuel e Jorge. Entre esses, há uma casa a que chamam “do Camarada Manuel” e fica num lugar que é a “Ye de los Negritos”. É uma casa que foi saqueada pela busca de jazigos e que foi alvo de uma quantidade de destroços por parte do Exército. No entanto, continua aí, não está em ruínas, se conservou de todas as maneiras; eu creio que essa casa merece ser reconstruída e ali instalar alguns elementos que possam contar um pouco como se deu aqui a coisa.
 
ECICP: Qual considera ou como considera que tem sido o aporte da mulher ao processo histórico atual? Qual é o legado histórico que o papel da mulher deixou na memória histórica das FARC?

I.S: A mulher tem sido fundamental, desde suas origens nas FARC houveram mulheres, em menor proporção nesse momento, porém pouco a pouco veio em ascensão até o ponto que agora mesmo somo 40%. Estamos em todas as responsabilidades; no Secretariado não, porém no Estado-Maior sim. Ademais, porque nós não o manejamos desde as cotas senão que manejamos de acordo com outros critérios, um pouco mais da projeção e do desempenho, não significa que não tenham mulheres capazes. Retomando o tema da memória histórica, eu considero que há uma quantidade de mulheres que desde os papéis que se vieram jogando no marco da guerra e da política ao interior da organização fizeram contribuições grandiosas, que merecem ser reconhecidas. Mulheres em todas as tarefas, lutadoras, valentes que estiveram ombro a ombro, ou seja, nós as mulheres o que temos é ganho em dignidade, que nós aqui não temos nenhum tipo de discriminação.

Considero que somos supremamente avançados em nossa política frente ao tratamento das mulheres, nos faltará na prática superar muitas coisas. Nessa ordem de ideias a história das FARC e sua memória pode contribuir com a realidade das mulheres na organização, essa verdade que é contrária à que informaram nos meios de comunicação por muitos anos. Na conjuntura atual, este processo de paz é muito importante porque é, sem sombra de dúvidas, o reflexo da nossa participação, a demonstração de que nós não estamos somente cozinhando e lavando a roupa dos comandantes, senão que no processo de paz se visibilizou uma quantidade de mulheres, nos visibilizamos. Foi o cenário perfeito para dizer: veja, é que as mulheres estamos em tudo, plenipotenciárias, nas comunicações, no relacionamento e na subcomissão de gênero. É muito importante e a nossa história tem que destacar muito este momento.

ECICP: Consideraria você importante reivindicar toda esta memória histórica através da instauração de um museu, uma galeria ou algo semelhante? Se decidissem fazer um museu das FARC, que lhe agradaria que fosse visibilizado ali?

I.S: Para retomar a pregunta anterior, eu creio que o tema das mulheres nas FARC tem que ser uma das coisas que nós contemos com maior intensidade de como tem sido a nossa participação, porque as futuras gerações têm que saber que estas conquistas são o produto do povo colombiano; porém que nessa luta, nesta batalha de 52 anos, morreram uma quantidade de mulheres e estamos aqui contribuindo de igual para igual. Então, as futuras gerações têm que saber a verdade, a nós não nos podem dizer que fizeram a revolução por nós porque nós sempre estivemos aqui.

ECICP: A nível individual, qual consideraria você qual é sua contribuição à reconstrução da memória histórica, uma vez se firmem os acordos?

I.S: A mim me interessa muito o tema, pessoalmente eu tenho uma amiga que está muito interessada em trabalhar, creio que com ela vamos elaborar algum plano para trabalhar nesse sentido. Ela é licenciada em ciências sociais, se chama Victoria, está muito interessada no tema e eu creio que eu vou acompanhar esse processo. Ele tem um pouquinho mais de especialização e de fato quer se perfilar para fazer algum mestrado ou alguma especialização no futuro sobre o tema; então, há sim que ajudar, há que pesquisar, nos colocarmos no plano de sistematizar, bem, e de construir toda essa memória, há muitas coisas por contar e não podem ficar no silêncio, evidentemente que não.

ECICP: Já para finalizar: como se vê você quando se reincorpore à vida civil, quais seriam suas expectativas ao sair de tudo isto?

I.S: O da reincorporação é uma coisa como tão incerta porque à maneira pessoal eu sempre me vejo como em reuniões, contribuindo com o novo movimento, eu me vejo é em função de fazer política, de falar com o povo, ajudar a impulsar o desenvolvimento nas regiões, porque isso estive fazendo num tempo. Porém eu creio que como projeto de vida em função desse coletivo. À parte disso me imagino estudando.

ECICP: Que gostaria de estudar?

I.S: Eu tenho uns semestres em ciências sociais, creio que vou terminar essa carreira e depois de imediato estudar ecologia, fazer um mestrado ainda que não tenho isso como muito claro todavia. O que sei, sim, é que tenho que estudar, estudar e me preparar porque são muitos os desafios que vêm e muitas as coisas que há que fazer e é preciso estar à altura. Ademais, me reunir com meus familiares, poder saudá-los. Num futuro próximo, não me vejo casada, porém, sim, de repente em alguma relação.

ECICP: Muito obrigado, para nós como ECICP é muito importante conhecer todos estes pontos de vista, nos parece chave e fundamental conhecer a história a partir dos que a viveram.

I.S: Ah!... me fizeste recordar a ideia que têm as comunidades aqui neste lugar, aqui onde estamos, a ideia é que se converta num caminho ecoturístico porque aqui também está toda a memória. Me parece que é muito simbólico porque aqui se desenvolveu a guerra, ou seja, aqui houve paramilitarismo, a guerrilha esteve aqui, isso pesa. Ademais porque aqui a guerra no processo teve vários momentos importantes e sobretudo pelo tema da X Conferência.

ECICP: Claro, é algo simbólico para a paz, de novo muito obrigado.

Tradução: Joaquim Lisboa Neto

Fonte: Prensa Rural

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