Retratos de Alfonso Cano (I)

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De Victoria Sandino: Falar do Camarada é falar de amor.

Após desfrutar de sua sorridente, amável e carinhosa boa-vinda, procedo a explicar a Victoria Sandino o motivo de minha visita. Acabam de sair de sua casa Manuela e Laura, com ar de despedida até o dia seguinte, e penso que é uma sorte ter escolhido essa hora para assaltá-la. Costuma estar muito ocupada e temia que não contasse com tempo para me atender.

Estamos em Havana, no começo de uma noite calorosa de lua cheia em outubro, e se aproxima o aniversário da morte do Camarada Alfonso. Minha intenção é conversar com aqueles da Delegação de Paz que foram muito ligados a ele, a fim de escutar de cada um sua versão acerca do inolvidável Comandante. Não podia faltar Victoria, e é com ela com quem resolvo começar.

Começou a trabalhar com ele desde o ano de 94 e até sua morte fez parte de sua equipe mais próxima. Devemos remontar-nos muitos anos atrás. Sim, é a mesma Victoria que eu conheci em inícios do ano de 95, quando foi enviada ao Magdalena Medio a ministrar um curso de Propaganda. Salvo uns quilos a mais, que lhe conferem o aspecto de respeitável senhora, é pouco o que nela mudou.

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Nunca deixará de surpreender-me seu rosto risonho de eterna juventude e olhar profundo, adornado sem falta por um par de óculos de proteção de cor vistosa. Nos últimos anos de vida do Camarada Alfonso ela esteve à frente de sua própria unidade de organização dependente diretamente dele e com comunicação diária, em meio àquele inferno de operações militares.

Relembra ter-lhe perguntado na última das contadas entrevistas que sustentaram na época por que não se transferia da zona em que se achava. As incursões do Exército no sul do Tolima eram crescentes, acompanhadas dos frequentes bombardeios da força aérea. Se combatia quase diariamente. E aonde posso ir-me que não haja confrontação?, lhe respondeu ele.

Para Victoria é claro que, quando se chega a admirar de tal modo a alguém, na realidade o que se sente por ele é um profundo amor. Não esse amor egoísta de casal, e sim esse sentimento íntimo de afeto que nasce do reconhecimento ao gênio, do assombro pelo que é capaz de realizar e pelo modo em que o faz, do deslumbramento que desprende sua personalidade.

Assim que não tem dificuldade em expressar quanto amor sentia pelo Camarada Alfonso, quanto o queria. Em mais de uma ocasião se surpreendeu ela e por sua vez o surpreendeu a ele quando, de maneira inconsciente, se ouviu responder a seu chamado com a palavra papai, como se a força secreta do enorme carinho que lhe inspirava o transmutasse em seu pai em alguma parte de sua alma.

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Nas FARC os chefes mais importantes compõem suas unidades de guarda com o pessoal que lhes inspira mais confiança e costumam deixá-lo durante muitos anos a seu lado. Isso termina por gerar uma relação quase familiar, que de algum modo se desenha como definitiva para o subordinado. Porém o superior tem claro que não compõe uma família e sim que está formando a um pessoal.

Assim que aos seis, oito, dez ou doze anos, qualquer dia os chama à sua sala para confiar-lhes uma missão de responsabilidade em outro lugar, com a possibilidade de que não voltem a se ver ou só muito eventualmente. Então vêm as separações. A Victoria, depois de uma década a seu lado, o Camarada a despachou um dia, porém para alegria dela não para muito longe, onde podiam se ver.

Daqueles anos de convivência diária na unidade do chefe é que ela fala com propriedade acerca dele. Ainda não consegue explicar como fazia para aproveitar tanto o tempo. Lia muitíssimo, conversava quase diariamente durante horas com os mandos de diversas unidades que sua unidade convocava e fazia permanecer ali até um e dois meses.

Recebia e despachava infinidade de correios, dos quais costumava fazer minuciosos relatos ao pessoal em palestras diárias. Lhe agradava que a gente soubesse o que sucedia nas outras unidades, particularmente as falhas e erros dos mandos, e sempre extraía as conclusões precisas para educar. Gostava de descrever com detalhes os combates dos quais recebia partes.

Porém também dedicava tempo a explicar os avanços no trabalho de organização e as peripécias da população civil. Victoria e os demais ficavam sempre maravilhados pelo perfeito conhecimento que o Camarada demonstrava acerca dos mínimos detalhes da vida cotidiana no acampamento. Talvez se devesse à posição em que situava sua barraca.

Preferia para isso o lugar mais elevado, desde o qual pudesse ter visão de todo o lugar, porém cuidando por sua vez que não estivesse tão afastado das barracas do pessoal e das demais instalações. Parecia estar atento, apesar de suas ocupações, de quanto falassem o oficial de serviço e as tropas no pátio de formação, assim como do que cada um fizesse.

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Não se tornava estranho que, quando o oficial se lhe apresentava na manhã a dar a parte diária, o chefe estivesse inclusive mais inteirado do que ele das diferentes novidades. Assim, uma vez, pela alegria demonstrada por uma garota que encontrou em seu desjejum uma dupla cota de ovos, o camarada descobriu que a cozinheira servia dupla porção a seu companheiro. 

Todos os pratos eram do mesmo tipo, quase iguais, pelo que a garota tinha recolhido um equivocado em lugar do seu, e resultou precisamente que o dono desse prato era o companheiro da cozinheira. Além de usar o caso para a correspondente fala educativa, o camarada assumiu daí em diante o hábito de percorrer as louças na hora que serviam as comidas.

Victoria não esquece da vez em que um dos mais importantes mandos do Comando de Ocidente fez acorrer o camarada Miguel Pascuas ante ele para receber-lhe parte. Ao ir depois onde estava o Camarada Alfonso a dar a parte geral, recebeu uma reprimenda. Ainda que seu escalão fosse superior, ele não era ninguém para fazer comparecer ante si um homem tão antigo e de tanto respeito como Miguel.

O Camarada Alfonso era muito exigente com o pessoal no relacionado com a mentalidade revolucionária e a disciplina que devia manter, porém o era mais com o corpo de mandos e ainda muito mais com os de maior hierarquia. Não levantava a voz nem gritava, porém, com sua lógica massacrante e suas incisivas perguntas, conseguia encurralar e envergonhar ao destinatário de sua crítica.

Se havia algo no que fosse delicado, era no relacionado com o gasto dos recursos da organização. Os que iam ao povoado ou à cidade a fazer diligências, tarefa na qual sempre considerou que eram mais responsáveis as mulheres, deviam levar a conta de seus gastos minuciosamente relacionada e comprovada com as respectivas faturas.

Não tolerava o que a seu ver era esbanjamento impróprio da mentalidade proletária que devia caracterizar ao revolucionário. Uma vez, uma garota convidou a duas pessoas para o café da manhã num restaurante do norte de Bogotá e foram quase três os anos em que ele a esteve repreendendo por semelhante conduta. Um guerrilheiro das FARC não tinha direito a gastar o dinheiro assim.

Por isso mesmo usava o tempo que fosse necessário para revisar pessoalmente as contas de gastos que enviavam das distintas unidades dos Comandos de Ocidente e Adán Izquierdo. Pelas faturas conhecia o preço exato dos artigos e por seu olfato detectava rapidamente os superfaturamentos e maus manejos. Se mostrava implacável com os autores das maldades.

No entanto, ninguém podia acusá-lo de avarento. Com as tropas sob seu mando costumava desenvolver uma excelente relação humana e nunca se mostrava avesso a atender suas reivindicações por estranhas que pudessem parecer. Encarregar, por exemplo, um tratamento caro para a queda de cabelo, por solicitação expressa de um combatente que temia ficar calvo.

Ou para tratar da pele das mulheres afetada pelo clima, ou, inclusive, como passou uma vez, viagra para um combatente de certa idade que tinha problemas porque as mulheres o deixavam com pouco de viver com ele. E isso com o risco de que as encarregadas de comprar o medicamento pensassem que era para ele mesmo, confusões que geravam ao final as mais engraçadas situações.

Ninguém como ele para abrir-lhe a alma e contar as ilusões ou as amarguras que aninhavam no coração. O Camarada se punha do lado de quem o fazia e procurava ajudar enquanto estivesse a seu alcance para que fosse feliz. Assim como com afetuoso espírito solidário servia de pano de lágrimas a alguma garota descartada que chegava a lhe contar sua dor por causa de um mau amor.

Victoria relembra até suas brigas com ele. Ela, exaltada e furiosa argumentando em voz alta suas razões, e ele cortante e sentencioso chamando-a à sensatez e negando-se a aceitar qualquer argumento expressado em maus termos. Talvez foi de uma situação dessas de onde surgiu a melhor conversa acerca do problema de gênero que tenha ouvido em toda sua vida.

Ela, insubmissa, praticamente se havia insubordinado na relação da tarde, como consequência do que julgou um manejo machista do oficial de serviço, na hora de resolver um problema em que se achava envolvida uma garota. A insubordinação é um grave delito nas FARC, o Camarada Alfonso se pôs ao lado do oficial e ela foi sancionada.

Durante uma semana durou cavando a terra com uma pá em suas mãos, ajudada de vez em quando por rapazes solidários cujos braços tiravam nuns poucos minutos muito mais terra do que a que ela conseguia tirar em uma hora, se irando solitária contra o que julgou uma atitude inesperada de parte de seu idolatrado chefe. Este, ademais, durou um mês inteiro sem lhe dirigir a palavra.

Nessa época, ela estava vencida. Ter perdido a proximidade e a confiança com o Camarada Alfonso se tornava a pior coisa que podia ter-lhe passado na vida. Era uma guerrilheira, um quadro, e portanto consciente de que havia manejado muito mal a situação naquela tarde. Podia ter esperado a reunião de partido e expressar a crítica aberta ao mando.

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Ou inclusive ter-se queixado pessoalmente por sua decisão ante o próprio chefe. Havia com efeito outra maneira de fazer as coisas. Porém a insubordinação carecia por completo de qualquer defesa nas FARC. Ninguém que o fizesse podia alegar nada a seu favor em nenhum exército. Ademais se sentia envergonhada, pois havia alegado inclusive ao próprio Camarada quando interveio naquela tarde.

Então, um dia ele a chamou a sua sala. E com o habitual trato carinhoso que sempre guardava para todos, lhe perguntou pelas razões de seu desvairado comportamento. Não lhes foi difícil se entender desta vez. Porém, então ouviu dele a mais sábia exposição acerca da situação real da mulher na guerrilha das FARC e tudo o que se necessitava para melhorar.

Para isso se reportou às origens da força, ao debate que se deu com pouco tempo de fundadas em torno da possibilidade que se contemplou de mulheres ingressarem nas fileiras. De como as primeiras mulheres chegaram não como combatentes e sim como companheiras dos que as traziam e de como estes se opunham a que fossem guerrilheiras. De quanto houve que lutar para que isso mudasse.

De todo o processo vivido na organização até chegar às Conferências 6ª, 7ª e 8ª nas quais a mulher obteve finalmente o reconhecimento pleno de seus direitos e deveres como combatente em igualdade com qualquer homem, e de como havia que trabalhar para que o que estava escrito se fizesse realidade nos fatos mediante um processo educativo de formação da gente.

Não só dos mandos, ou dos homens, como também inclusive das próprias mulheres, que chegavam da vida civil com uma mentalidade preparada para a submissão ao homem. Se tratava de uma luta que havia que travar ao interior da organização, uma luta justa, porém que tinha que saber travar-se. Não era contra um mando em particular, nem por parte de uma mulher em particular, devia ser de todos.

Victoria o escutava abismada pela clareza de seu chefe em torno aos problemas da mulher e as dificuldades que entranhava vinculá-las primeiro a elas e à luta e depois aos homens, num cuidadoso processo de geração de consciência. Compreendeu-o bem e, muitos anos depois, em Havana, convertida numa referência nacional da luta de gênero, ainda agradece a ele.

Retratos de Alfonso Cano (II)

Retratos de Alfonso Cano (III)

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