Entrevista o Comandante Santrich

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Semana.com.: A que se referem quando dizem que o Governo lhes está descumprindo?

Jesús Santrich.: Os lugares que se supõem iriam ser cenários de recepção da guerrilha não estão acondicionados. Em La Habana se pactuaram alguns requisitos mínimos para a estadia dos combatentes nas zonas, porém a 20 de dezembro não tinha um só lugar apesar de que nós já estávamos em pontos de pré-agrupamento. Uma mostra de que havia uma vontade política. Nesses dias se expediu uma ata dizendo que no mais tardar finalizando janeiro íamos estar nas zonas sempre e quando estivessem adequadas. Quer dizer, com as condições sanitárias ótimas: a agua, a luz e a conectividade. Não eram exigências exageradas mas sim o que se havia acordado.

Semana.com.: Não crê que exageram um pouco quando dizem que todas as zonas estão atrasadas?

J. S.: Na zona veredal deve haver um lugar de recepção da população para que não se misture com a guerrilha. Nenhuma dessas áreas estão adequadas nem sequer as áreas comuns como as salas de aula, lugares de lazer ou moradia. No melhor dos casos, a mais avançada, porém que contudo não chega a estar construída em 25%, é a que o presidente  Juan Manuel Santos  visitou em Puerto Asís, Putumayo. E o que se conseguiu também é porque a guerrilha pôs mãos à obra à disposição as 24 horas do dia. Agora a guerrilha saiu a dever ao governo. Não só nos tocou construir uns acampamentos improvisados para nos assentarmos enquanto se adequavam os pontos acampamentários como também trabalhar nesses espaços e nos pontos onde deve estar a guerrilha com suas armas e seus apetrechos.

Semana.com.: No informe que o governo entregou se diz que vocês queriam cobrar pelo trabalho nessas zonas, é certo?

J. S.: Alguma vez se disse que essas eram obras contratadas, a força laboral dos guerrilheiros também tem valor e se disse que era sensato que se pagasse. No entanto, depois da ata que saiu da reunião conjunta nas Planícies do Yarí, se descartou isso e de igual forma pusemos à disposição a mão de obra. Agora, essas esquadras ficaram paralisadas porque não há material ou uma instrução clara dos engenheiros. O gerente das zonas veredais, Carlos Córdoba, trouxe à luz pública um fato de maneira infame porque o tema já se tinha solucionado. Não tinha nenhum problema, não era um ex abrupto. Se há força laboral e lhe pagando a todo mundo, é normal que os combatentes tivessem também a oportunidade.

Semana.com.: Na segunda-feira o Governo os tirou de casinhas, por quê?

J. S.: É muito delicada a quantidade de mentiras que disseram Carlos Córdoba e Sergio Jaramillo. Nessa roda de imprensa também esteve o general Flórez, porém tudo o que ele disse foi sensato, porém o que os outros personagens disseram foi uma mentira ao país. Segundo os últimos informes que chegaram de Tumaco, uma das zonas que mais criticaram, aos empreiteiros não lhes pagaram. A qualquer momento param a obra. Isso lá vai muito lento. Contra Romaña se disseram muitas coisas, porém isso foi uma infâmia. Romaña esteve em Bogotá falando com Carlos Córdoba e se chegou a alguns acordos que foram totalmente cumpridos. Não se estão fazendo as exigências que disseram ao país.

Semana.com.: Se se criou a Comissão de Seguimento, Impulso e Verificação à Implementação [CSIVI] como o espaço para dissolver qualquer diferença que surgisse na implementação, por que na segunda-feira ambos se lançaram farpas?

J. S.: A nós surpreendeu essa coletiva de imprensa porque nesses mesmos dias o comandante Iván Márquez estava numa área acampamentária. Durante quatro dias transitou por seis zonas dando-lhes estímulos e falando com os guerrilheiros sobre a necessidade de contribuir para acelerar isto. A direção participou aqui em Bogotá de uma reunião para informar sobre o que se estava fazendo. Oh surpresa quando estes dois personagens saíram publicamente a fazer um balanço unilateral quando aí está a CSIVI. Já os havíamos feito e eram nefastos. Na roda de imprensa que as FARC deram anterior a desta de segunda-feira, se deu um informe positivo porque foi um compromisso na CSIVI. Desta vez foi descortês e irresponsável porque o que faz é ferir a sensibilidade da guerrilha. Em alguns pontos há amontoamento, em outros não há água suficiente ou energia, o combustível não chega, as vias estão um desastre.

Semana.com.: Se tudo é como vocês pintam, por que o último informe do mecanismo tripartite fala de 90% de conformidade?

J. S.: Esse balanço também se refere aos translados que se deram. Na carta de Jean Arnault faz uma descrição clara das dificuldades que há, a mesma que teve uma resposta infeliz da chanceler e do senhor Sergio Jaramillo que desqualificaram a insurgência e a própria ONU. Não é certo que isso esteja em 80% adiantado. Esta situação gera uma desmotivação porque, ademais de que se está fazendo um esforço, agora nós saímos a dever ao Governo.

Semana.com.: Em tempos de implementação, se começa a desgastar a relação das FARC com Sergio Jaramillo?

J. S.: Essa é uma relação que tratamos de sustentar apesar das obstruções de Sergio Jaramillo. Um personagem bastante difícil. Ele não busca a norma e os acordos para resolver mas sim para obstruir, tem uma grande capacidade de interpretação obstrutiva. Por outro lado, Carlos Córdoba, como disse Carlos Antonio Lozada, ademais de mau gerente é um mentiroso, arrogante e não tem sido capaz de manejar as zonas. Nunca esteve em Tumaco antes de dizer as barbaridades que disse do comandante dessa zona que pôs seu interesse e disposição. Convido ao mecanismo para que faça um balanço.

Semana.com.: E, como lhes tem ido com o ministro do pós-conflito Rafael Pardo?

J. S.: Há uma boa relação, o homem escuta. É um pouco contraditório o que faz o Governo porque antes dessa roda de imprensa o ministro foi a Tumaco e em declarações manifestou que isso não avançava. Não é culpa nossa, isso de que a guerrilha se atravessa e não deixa construir é falso. Todos têm estado disponíveis para trabalhar.

Semana.com.: Isto começa a ter efeitos sobre a tropa? Se diz que quatro pessoas se foram de La Carmelita [Putumayo] pela condição das zonas? Há dissidências?

J. S.: Se tem feito uma condução do processo de tal maneira que tudo esteja coeso. Tudo temos ido consultando com os combatentes. Nestes processos tão complexos há dificuldades, como tem sido o caso das dissidências. De fato, se apresentaram algumas no Bloco Oriental e outros do Sul, porém, para a dimensão das FARC não chegam a fraturar essa unidade que se tem conseguido manter. No entanto, com estas séries de fatos irresponsáveis, eu penso que de alguma maneira se afeta a credibilidade dos combatentes no processo. Se estão apostando na desmoralização da guerrilha, estão jogando a que o processo completo colha um mau rumo.

Semana.com.: Sentem um plano tartaruga na implementação do acordo?

J. S.: O fast track vai muito lento. Esse espetáculo que se deu durante a discussão da Jurisdição Especial de Paz no plenário do Congresso foi lamentável. Eles fizeram seu papel no caso da Anistia e outras normas. É como se estivéssemos fazendo uma espécie de renegociação.

Semana.com.: Como vão as coisas, tudo aponta para que vocês ficarão nas zonas mais dos 180 dias, verdade?

J. S.: O processo de reincorporação dura anos. Eu creio que sim porque há que adiantá-lo em termos econômico, social e político. Os processos produtivos há que iniciá-los aí. A maioria de nossos combatentes são campesinos, indígenas e filhos de comunidades afrodescendentes. Onde alguém se lhes pode imaginar?, em Bogotá olhando a ver o que encontram nas esquinas dos semáforos ou debaixo das pontes. Isso não teria sentido. Onde vão se arraigar se as zonas que selecionamos é onde viveram sempre?; onde têm convivido lançaram suas raízes. Nessas zonas muitos dos guerrilheiros têm suas famílias. Não vamos removê-los para Marte ou para Saturno. É nesse cenário onde devem fazer seu processo de reincorporação.

Semana.com.: Se fala de inconformidade com alguns contratos que o Governo firmou para garantir sua subsistência nas zonas, vocês tinham alguma aspiração com eles?

J. S.: A aspiração que tínhamos era que a contratação para a execução de projetos fosse transparente. Que o vírus da corrupção não afetasse esses recursos, mas sim que houvesse uma nova forma de executar o erário e que se beneficiasse as regiões. No entanto, estão ocorrendo coisas dramáticas. Os custos das coisas estão sendo elevados até em 100%. Tudo se elevou de maneira exorbitante. Se a nós nos tivessem dado os recursos, teríamos comprado quatro vezes o que se levou para lá.

Semana.com.: Deram ou não as costas aos combatentes que se submeteram à lei de Justiça e Paz?

J. S.: O acordo é para todo aquele que esteve em rebelião. Não podemos fazer exceções de uns ou de outros. Certamente haverá gente que abandonou as FARC que vai se beneficiar do acordo e nisso não podemos pôr obstruções. A crítica que fazíamos à Promotoria é que, enquanto há uns quantos milhares de ex-combatentes que pediram a Anistia de jure, não se aceleram esses trâmites porém sim os daqueles que abandonaram as fileiras das FARC. Não é que nos oponhamos. Todo aquele que se possa beneficiar que o faça.

Semana.com.: Como tem visto ao promotor Néstor Humberto Martínez?

J. S.: A promotoria geral tem tido um papel negativo no processo de reconciliação. Quando estava o promotor anterior – não tão nefasto como este -, quase que a maior parte dos promotores os concentraram para atuar contra as FARC. Mais de 300% promotores estavam destinados a construir os processos contra nós. Até contrataram a senhora Springer para fazer seus algoritmos. Esse promotor se empenhou em obstruir a Jurisdição Especial de Paz e aspectos essenciais dos acordos como a criação da Unidade de Investigação do Paramilitarismo. Ele o quer pôr sob seus foros. Não se pôde adiantar as ações contra o paramilitarismo.

Semana.com.: Nos próximos três meses terão deixado as armas?

J. S.: Tudo isto se trata de afastar o uso das armas na política e nós já o fizemos. Já as afastamos. Em grande medida o processo de deixação começou quando fizemos o cessar-fogo, a segunda etapa foi quando fizemos o pré-agrupamento e a terceira se consumou no dia em que nos metemos nos pontos de normalização. As armas estão fora de combate. Se afastaram de seu uso na política. Já começou o processo de destruição de armas instáveis e o registro.

Semana.com.: Vamos ou não ver um postal da deixação de armas?

J. S.: Nós temos dito que não necessariamente. A deixação não é tripartite, é a ONU conosco. Fazemos os registros, colhemos os fuzis e os colocamos nos contêineres e depois serão utilizadas para construir três monumentos. Não acreditamos que seja necessário que haja fotografia sobre isso. A clássica fotografia do desmobilizado que entrega sua arma ao Governo, isso não vai ocorrer.

Semana.com.: Seu acionar coincide com alguns pontos onde trabalhou Odebrecht, a empresa brasileira pagou ou não ‘propinas‘?

J. S.: Eu não creio que a Odebrecht tenha financiado as FARC. No entanto, dizê-lo não corresponde a nós. Isso corresponde à Jurisdição Especial de Paz [JEP]. Neste processo, a primeira coisa que opera é o reconhecimento do direito à rebelião. Certamente haverá casos não indultáveis que vão à JEP, porém aqui não vamos julgar ou fazer auto acusações desnecessárias. Esperaremos que venham essas acusações e responderemos a elas com a verdade, que é o que temos dito. Isso não implica que agora vamos nos converter em delatores em tudo o que contribuiu para o financiamento da rebelião. Aqui há muita gente de um ou outro partido, setor e sobrenome que contribuiu. A rebelião não se faz com o vento mas sim com recursos e custa. Felizmente chegou o início do caminho da paz que oxalá não tenha mãos obstruções.

Fonte: Semana

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