Outra vez o Alto Comissionado de Paz

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Por: Timoleón Jiménez, FARC-EP

Em fins do mês de março, o Comando de Direção das FARC-EP no PTN “Amaury Rodríguez” de Pondores, município de Fonseca, Guajira, enviou uma carta aos 15 prefeitos desse estado, com o propósito de propor-lhes a realização de algumas ações conjuntas inseridas na ideia de trabalhar na Implementação dos Acordos de Havana.

A nota, elaborada com o melhor espírito de unificar esforços para o que se emana do desenvolvimento do Acordo de Paz, terminou com o respeitoso convite a reunirem-se no PTN no dia 6 de abril, ou na data que os destinatários acordem, na medida em que o estado da Guajira, dentro dos critérios contidos no PDET, faz parte dos territórios priorizados.

Em graça de discussão poderíamos aceitar que se tratou de um documento conciso, ao qual talvez fez falta uma explicação mais ampla e cordial em torno aos assuntos apresentados. Entendemos que as responsabilidades dos funcionários locais implicam agendas muito estritas, e que variá-las por convites repentinos pode originar dificuldades em sua patriótica função.

Outra coisa, a dimensão que optaram por atribuir ao fato alguns funcionários e setores da imprensa local e nacional, que preferiram interpretar a missiva como um ex abrupto e uma pressão indevida, argumentando que as FARC não deixaram as armas. Exemplo disso são as expressões do senhor Governador da Guajira, Wilder Guerra Curvelo.

Para ele se trata de um fato inadmissível, ilegítimo e tremendamente arbitrário, pois em seu parecer se está chamando os prefeitos a prestarem contas, como nos piores dias do conflito armado. Houve expressões parecidas por parte de alguns setores políticos que se caracterizam pelo ódio enfermiço à realização dos Acordos de Havana.

Entre todas as manifestações produzidas, por sua significância e porque se tornou numa repetida atitude, quisera assinalar a do doutor Sergio Jaramillo:

“...isto se pode considerar como uma violação ao cessar-fogo porque as Farc não terminaram de se desarmar e é uma pressão sobre a sociedade, é uma alteração da ordem na região e o acordo diz claramente que está proibido’.
“Qualquer pessoa pode sentir isso como uma pressão e o acordo diz que qualquer pressão à sociedade ou às autoridades é uma violação ao cessar-fogo”.
“...se as FARC querem fazer política, se querem intercambiar dessa maneira com as instituições, devem acelerar o processo de deixação de armas porque não terminaram de se desarmar”.

O Alto Comissionado de Paz conhece perfeitamente os Acordos porque desde o início das conversações e até sua firma final permaneceu na Mesa, expressando seus pontos de vista e os do governo nacional. Sua assinatura aparece em cada um dos exemplares formais. Ademais assumiu, nem sempre com a sindérese devida, a tarefa de exegeta rigoroso dos mesmos.

Sabe perfeitamente que as zonas veredais e pontos transitórios de normalização não foram concebidos, e assim ficou contemplado nos Acordos e Protocolos sobre o Cessar-Fogo bilateral, como guetos nos quais os guerrilheiros das FARC em trânsito à vida civil permanecessem por completo isolados da sociedade e sem nenhum contato com o mundo exterior.

Por isso se acordou neles a construção de áreas de recepção, nas quais qualquer pessoa ou funcionário podia ir conversar com as FARC no espírito dos Acordos ou inclusive com caráter pessoal, como sucede com os familiares e amigos dos combatentes. Por isso, esses lugares foram incluídos dentro das áreas comuns cuja terminação se privilegiou no conclave de Cartagena.

Sabem também, porque foi um de seus propulsores, que no ponto sobre Reforma Rural Integral se acordou os Programas de Desenvolvimento com Enfoque Territorial ou PDET que cobrirão a totalidade das zonas rurais do país, priorizando as zonas mais necessitadas e prementes, para implementar com maior celeridade e recursos os planos nacionais que se criem no marco do Acordo.

Diz o acordo que, para cumprir com seus objetivos, “é necessário elaborar em cada zona priorizada, de maneira participativa, um plano de ação para a transformação regional, que inclua todos os níveis de ordenamento territorial, combinado com as autoridades locais e as comunidades”. Se torna, portanto, incompreensível a inaudita ira do doutor Jaramillo.

Tenho a certeza de que nossos companheiros do Ponto Transitório de Normalização “Amaury Rodríguez”, de Pondores, atuaram dentro do espírito do acordado, e que, como é natural, fizeram-no animados pela urgente necessidade de dar a conhecer os Acordos a funcionários locais, na medida em que, como fica visto, o Escritório do Alto Comissionado para a Paz não o faz.

Há dois ou três dias se deu a conhecer o Quinto Informe Mensal do Mecanismo de Monitoramento e Verificação no qual se reporta ao país o cumprimento dos Acordos pelas partes e as possíveis violações do cessar-fogo durante o período compreendido entre 7 de março e 7 de abril. O organismo autorizado pelos Acordos não pensa igual que o Alto Comissionado.

Seria conveniente que esse funcionário se inteirasse dos reiterados descumprimentos por parte do Estado, oficialmente assinalados pelo único mecanismo legitimado para isso, em vez de sair a afirmar frequentes baboseiras em aberta violação ao acordado com o alto governo em torno à maneira e aos mecanismos de abordar as diferenças que se apresentam na implementação.

Do afirmado por ele não só nesta como também em ocasiões parecidas, fica a impressão de que sua única obsessão reside na deixação completa de armas por parte das FARC, com indiferença pelo respeito aos demais compromissos pactuados. Se essa é sua preocupação, devia se satisfazer com o Informe oficial do MM&V, que é muito claro em relação ao estrito cumprimento nosso.

Circula pelas redes um vídeo em que um descarado personagem louva os tempos de Carlos Castaño e anuncia abertamente o início de uma guerra urbana cujo propósito é exterminar aos colombianos comprometidos com os Acordos de Paz, incluindo, sem a menor reticência, ao presidente da República, numa manifestação a mais do delírio fascista da ultra direita.

Cabe perguntar se o Alto Comissionado para a Paz é consciente da maneira como com suas irresponsáveis declarações contribui para instigar e alimentar o ódio irracional dos setores dispostos a afogar o país em outro interminável mar de sangue, justamente quando a Colômbia vitimizada, decente, democrática e digna se empenha em sepultar para sempre semelhante demência intolerante.

La Habana, 12 de abril de 2017.

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