Outra mirada da guerra

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Por: Esperanza Rincón González

Estive numa das Zonas Veredais Transitórias de Normalização onde se concentram ex-combatentes das FARC-EP e, mais além de mencionar as condições nas quais vivem ou o que comem, o que chama a atenção é que para as FARC já não há marcha para trás.

Os fatos mostram que existe toda a vontade de entregar as armas e seguir nas lutas históricas e vigentes dos temas agrários, de terras e demais que demonstram a dívida histórica que o Estado colombiano tem com as populações rurais, ainda quando os pilares do próprio governo ou a política de Estado não contribuem com a paz nem refletem as verdadeiras necessidades do país –exemplo disso são as políticas educativas, a economia extrativista e em geral a proteção social-.

Por isso a interpretação agora deve ser distinta; é um processo complexo e irreversível. Se as partes cumprem a nova data, o país terá claro que a paz com as FARC está muito próxima de ser um fato e que devemos seguir blindand0-a pelo bem da Colômbia, envolvendo mais povo com a implementação. Porque o Acordo de Paz, mais que dar concessões aos “terroristas”, está fundamentado em sacar da guerra e da enorme desigualdade a essa Colômbia profunda, esquecida e abandonada por um país que a excluiu desde há 53 anos.

Alguém poderia concluir que os atrasos por parte do Governo Nacional na implementação do Acordo e os entraves constantes teriam como finalidade desmoralizar as FARC, porém esquecem que as FARC são precisamente uma força de resistência que já resistiu a um conflito de 53 anos e que resistirá a todas as desavenças frente à paz da Colômbia.

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A população tem que entender que todos somos Colômbia. Se queremos ter um país viável é preciso iniciar um processo de normalização de algo tão básico como é a tolerância ao pensamento diferente. Porque se torna muito difícil comunicar-se e aprender com os demais se continuamos pensando que a única forma de ser normal é seguindo os julgamentos dos meios de comunicação. Estes já não têm credibilidade, se leiloam ao melhor lançador. Assim que é melhor aprender a nos ouvir uns aos out ros e entender que não são excepcionalidades; devemos viver exercendo um tratamento de respeito mútuo.

E mais além de apregoar uma ingerência na vida de cada quem, todos merecem respeito e generosidade; porque quem se atreva a olhar mais além do que dizem os meios [de comunicação] poderá ver que os guerrilheiros vivem, como sempre viveram: sem salário, em barracas à intempérie, sem serviços, só com umas poucas posses para aplacar as mais básicas necessidades. Ao contrário do que dizem os senhores da guerra: que estão abarrotados de dinheiro do narcotráfico, que vivem com luxos; porque só a eles lhes beneficia uma guerra i nterminável. Nestes momentos essas mentiras caem por seu peso. Se os guerrilheiros tivessem tanto dinheiro como apregoa a direita não lutariam pela paz, não deixariam suas armas para fazer política na legalidade de um Estado vil e traidor. Resta alguma dúvida de que o que chamam classe dirigente em Colômbia é um bando cujo fim único é o enriquecimento ilícito?

À população ainda a governa o medo para reconhecer que os guerrilheiros têm razão e por algo as FARC estão dispostas a entregar as armas, sua segurança, sua vida, para se protegerem com a Constituição. Porém eles sabem muito bem o que lhes espera: a angústia pelo futuro dos ex-combatentes que estão à mercê de um Estado corrupto, de um país que é geneticamente rico, administrado desde a Independência pelas mesmas famílias dispostas a armar outra guerra, como a que intentamos terminar, com o objetivo de que tud o continue igual e assim manter suas fortunas e seus privilégios.

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Vivemos num país onde se pensa que a aprovação, por reforma constitucional, para declarar ilegal o paramilitarismo é um triunfo das FARC e uma derrota moral para o país, onde a população normalizou o discurso paramilitar, o ódio e a violência; isto reflete que o paramilitarismo era sim uma política estatal. Isso é o que tem a nosso país no pior dos atrasos e por isso a muitos os governa a indiferença. Este acordo começou com o propósito de curar uma ferida e seria absurdo que terminasse criando outra maior.

O conjunto do povo colombiano deve estar à altura deste momento histórico. Ainda que são poucos os colombianos que querem enfrentar a desinformação com que nos inundam os meios de comunicação, algo sumamente importante seria visitar uma zona veredal ou se atrever a ouvir as opiniões dos que nunca tiveram voz. São milhares os que viveram na clandestinidade, na selva, sendo afastados e violentados pelos sucessivos governos. Os guerrilheiros dizem que não lhes foi duro foi viver na selva, já que quando eram campesinos também viviam nessas condi&ccedi l;ões ou piores pela incessante insegurança. O mesmo sucede com os soldados, são pessoas de escassos recursos de campos e cidades. Se o serviço militar fosse voluntário não existiria a guerra, ninguém gostaria de empunhar uma arma para ir a lugares distantes de suas famílias para matar a outros colombianos com a desculpa de defender a pátria, quando na realidade estão protegendo só os interesses de uns poucos. Se fosse pela pátria não os obrigariam a se matarem entre os colombianos.

O bom é que agora se está vendo que o verdadeiro problema do país não é a guerrilha. Nos ex-combatentes se pode ver a singeleza e a amabilidade, se pode ver o anseio de paz das FARC porque Quem quer ser o último morto nesta confrontação? Ninguém quer ser desmembrado pela guerra, ninguém quer perder um companheiro no campo de batalha, ninguém quer ver mães chorando seus filhos que nunca chegaram em casa. Os guerrilheiros são conscientes de que neste conflito quem paga as consequências são os pobres, porque são os soldados e os guerrilheiros quem derramam seu sangue por culpa de um Estado criminal.

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E o que desmotiva é o descumprimento do governo e a falta de compreensão por parte das pessoas, pois não reconhecem o esforço que os guerrilheiros e as comunidades que dependem deles estão fazendo. As FARC, que durante meio século lutaram contra o Estado, hoje põem sua vida, sua segurança física e jurídica em mãos do Estado, este é um ato de confiança próprio de um processo de paz e a população deve reconhecer isso. Na guerrilha têm a esperança de que grande parte da Colômbia ponha os olhos nas zonas veredais, já que são regiões esquecidas, e que vejam realmente como são os guerrilheiros, essa é sua motivação.

Os ex-combatentes estão otimistas por deixarem as armas, porém muito angustiados pelo descumprimento e o auge do paramilitarismo. Ainda que sabiam que não ia ser fácil, que o paramilitarismo tem muitas formas de se expressar porque é um projeto político, econômico, cultural e que tudo toca lutá-lo; agora, desde outros espaços, sabem que os verdadeiros beneficiados e fortalecidos por uma guerra eterna são outros pois com a guerra a primeira que se sacrifica é a verdade. Agora se deve criar memória, ser conscientes da luta campesina que toda a organi zação guerrilheira desencadeou.

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Nestes momentos, ainda que tenhamos diferenças e apesar de todas as críticas que existem, mais além destes problemas, temos que ver o autêntico perigo que temos ainda; por isso o país inteiro deve contribuir para que a reincorporação dos guerrilheiros saia bem, porque disso depende em boa medida que a paz seja, como reza o acordo, estável e duradoura.

Fonte: Prensa Rural

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