Guerrilheiros e Promotor, o grande contraste

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Por Gabriel Ángel

Se torna reconfortante perceber diretamente o ânimo dos guerrilheiros e das guerrilheiras das FARC. Como nos velhos tempos, a gente trabalha sem cansaço durante as horas do dia. Se as obras avançam na zona veredal de Caño Indio e nas outras, não se pode atribuir a nada distinto que ao tesão e o sacrifício com que eles e elas se desempenham sob o sol abrasador.

Todos estão atentos às orientações de sua direção e as seguem sem nenhum tipo de vacilações. Sabem que em menos de quinze dias terão feito deixação de suas armas, e que dois meses depois farão parte de um novo partido ou movimento político legal, reincorporados à vida civil e desempenhando tarefas coletivas das quais derivarão sua subsistência.

Esperam o nascimento de ECOMUN, a grande cooperativa na qual se abrigarão os projetos socioeconômicos que proporcionarão os recursos suficientes para a sobrevivência do partido e seus militantes. Têm claro que deverão trabalhar disciplinados e coesos para fazê-lo possível. Que as coisas não serão fáceis, porém que entre todos conseguiremos sair adiante.

Possuem uma convicção política e uma capacidade de trabalho invejável. São mulheres e homens jovens, plenos de vida e esperanças, dispostos a construir com suas mãos um mundo novo. E a contagiar a todo um povo com seu entusiasmo. Não lhes amedronta saber que a única arma com que contarão será sua palavra, nem que seu único patrimônio será sua vontade de trabalho.

Por isso lhes resulta tão ofensiva a atitude do Fiscal Geral da Nação, Néstor Humberto Martínez. Ninguém melhor que os guerrilheiros para saber o que custou edificar as FARC, a pulso, sem outra ajuda que a de seu próprio esforço. Viveram na clandestinidade durante mais de meio século, com recursos cuja consecução custou a vida, a liberdade ou o sangue de muitos deles.

Levantaram sempre as bandeiras da solidariedade, da justiça e da igualdade. Tudo quanto fizeram se encaminhou para a construção de uma sociedade nova, na qual ninguém, nem os marginalizados, os pobres como eles, os desprezados e abandonados tivessem por fim um reconhecimento e pudessem gozar plenamente dos direitos que sua condição humana merece.

Necessitavam se alimentar, se vestir, curar-se na enfermidade, cicatrizar as feridas, dotar-se dos implementos necessários para a vida errante na montanha, adquirir os bens que requeressem para transportar-se quando lhes fosse necessário, conseguir o armamento, as munições, os explosivos e os demais materiais exigidos para travar a guerra.

Qualquer recurso resultou sempre insuficiente. As necessidades nunca cessavam e, pelo contrário, cresciam em número e qualidade com o tempo. Por isso se fez necessária a construção de uma economia de guerra. Adquirir cabeças de gado para alimentar milhares de combatentes, mulas para mover a logística, terras e pasto para sustentá-las, veículos para se moverem.

Com o assédio permanente de um inimigo empenhado em arrebatar ou destruir tais bens. Que nunca cessou em sua perseguição sanguinária. Que encarcerou, assassinou, deslocou, despojou e se apropriou dos bens da população campesina de quem suspeitou minimamente pudesse brindar ajuda à insurgência. Que celebrava deixar a guerrilha sem alimentos no fundo da selva.

Agora se firmou um Acordo de Paz. Todos nas FARC o sabem e aplaudem, assim como milhões de colombianos e colombianas que estimam em toda sua significação o fim do conflito armado. Após meio século de chumbo e décadas inteiras de diálogos frustrados, foram pactuadas algumas fórmulas que possibilitam um futuro distinto para esta pátria ferida.

Dentro delas se contemplam várias que ofendem no mais íntimo ao Fiscal Martínez Neira. Uma é a criação da Jurisdição Especial para a Paz, a JEP; outra, a criação de uma unidade investigadora especial para o combate e a perseguição do paramilitarismo; e outra o inventário e a entrega de todos os bens que constituíram a economia de guerra das FARC.

A primeira não lhe agrada porque com ela a Promotoria esgotará sua capacidade de perseguir judicialmente as FARC pelos fatos cometidos no desenvolvimento do conflito. A segunda porque a unidade especial atuará de maneira autónoma nas investigações sobre a atividade paramilitar no conflito e depois dele. A terceira porque não comparte o destino dos bens das FARC.

Anunciou que entregará 50.000 investigações penais adiantadas pela Promotoria contra as FARC. Porém quer seguir se ocupando de outras, em aberta contradição com a anistia e o indulto concedidos. Sua obsessão contra as FARC contrasta com a baixíssima porcentagem de investigações contra agentes estatais e paramilitares, que nada lhe importam.

Com isso demonstra seu total desinteresse em que se revele a verdade sobre o conflito. O qual se reforça com sua resistência à unidade de investigação especial. Não comparte que um ente que escape a seu controle tenha capacidade de promover as diligências que a Promotoria não realizou durante décadas de impunidade. Que destape o que desde o Estado se manteve oculto sempre.

Se conhece de seu passado dedicado a defender interesses de grandes empresários. Como se vê, a dor que lhe causa que possa atingir a alguns ou muitos deles... Do mesmo modo esbraveja porque os bens das FARC vão ser destinados para a reparação das vítimas. Assegura, sem provar, que se trata de bilhões. E sustenta que a soberania fiscal não se pode restringir.

Em seu parecer, a apoteótica fortuna das FARC deve entrar nas arcas do Estado para que este livremente disponha dela. Se rasga as vestes pela fidúcia contemplada para seu manejo e sua destinação final às vítimas. Não oculta quanto lhe agradaria que os imaginários caudais passassem ao manejo da banca privada e dos empresários que sempre defendeu.

Se o preço de um fuzil se taxasse em vinte milhões de pesos, sete mil deles somariam cento e quarenta bilhões. As armas em abrigo, as oficinas, o material explosivo, os morteiros, metralhadoras e demais, de fato, somarão cifras surpreendentes. Os bens móveis e imóveis inventariados e entregues certamente acrescentarão o caudal final. Sem exageros.

Enquanto isso, tanto guerrilheiros e guerrilheiras conservam a ilusão de construir um patrimônio legal com suas mãos desnudas, com sua comprovada capacidade de trabalho. Reclamam com justiça que se lhes concedam algumas terras para implementarem nelas seus projetos produtivos, que lhes propiciem alguns recursos básicos para iniciá-los. Jogam limpo e não renegam. Aprenda, senhor Promotor, e respeite.
 
Tradução: Joaquim Lisboa Neto

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