O “passinho” da paz em Colômbia

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Por: José Javier Capera Figueroa

A história da violência em Colômbia segue tomando outros rumos. Nós que nascemos em meio às balas sofremos a dor das vítimas e, como se fosse pouco, chegamos ao ponto de cegar-nos ao naturalizar os massacres, os desaparecimentos e, no maior dos casos, a violência mesma. Agora presenciamos um caminho mais forte em meio às vicissitudes que trouxe consigo o processo de paz entre o Estado e a guerrilha das Farc.

Comecemos por reconhecer o grande valor que constitui o “silêncio dos fuzis”, um grande passo que facilitou a negociação em meio a um cessar-fogo entre ambas partes, a garantia dos vedores internacionais encarregados de apaziguar os ânimos e reviver o frio das conversações, porém o mais importante, a essência que constituem a paz desde as regiões um elemento que pôs a sociedade colombiana a pensar. Os diálogos que estamos presenciando e o desarmamento que sucedeu é o resultado de um processo de longa duração q ue ainda continua e, ainda que alguns setores radicais têm buscado diversas estratégias para apaziguá-lo, só resta seguir o caminho da paz na terra do contraditório Macondo.

Com efeito, foram sete anos onde o governo de Santos começou por fazer contatos/aproximações em segredo. Se sabia que grande parte do imaginário em Colômbia não aceitaria de forma incondicional algum tipo de conversação com a guerrilha das Farc, porém, como diz o ditado: “as coisas não se dizem, se fazem por si mesmas” e assim foi como se deu rumo ao último acontecimento que estamos vivendo, a deixação de armas e a materialização de outro ponto do acordo por construir a paz que esta geração e as futuras tanto merecemos.

É necessário assinalar que não é o melhor acordo da história e que setores “poderosos” são os maiores opositores. Alguns habitantes das grandes cidades encegueirados pela violência e em seu defeito a inconformidade que presenciam comunidades indígenas, afros e minorias políticas frente à implementação dos mesmos, em particular o assunto da “consulta prévia” em matéria política, econômica, social, territorial são os desafios que devemos seguir pensando para fortalecer nosso momento histórico por e na paz.

No entanto, não se pode deixar de lado certos avanços muito concretos que resultaram até o momento com a deixação das armas por parte da guerrilha das Farc:

  • Está chegando a seu fim a confrontação bélica que deixou mais de 7 mil sequestrados, 6 mil soldados vítimas de minas anti pessoas, 2 mil mortes seletivas e, como em todo cenário de conflito armado, sonhos decompostos, tecidos familiares destruídos e sentimentos de vingança, ódio, dor e ressentimento que habita nos corações e vidas de alguns colombianos.
  • “O passado é de ferro e o futuro de areia”, escrevia William Ospina. Já não podemos fazer nada com o sucedido, só resta aprender do vivido. O caminho continua e temos a necessidade de assimilar o presente e, por que não, pensar no futuro. Assim, pois, o reiteram a guerrilha das FARC ao deixar 7.132 armas, isto é, uma por combatentes, o que significa a proporção de 1:1, um dado que em poucos processos de paz sucedeu. É o pano de fundo de um compromisso político entre ambas partes sem deixar de lado os depósitos que faltam por localizar e contabilizar.
  • Em meio às dificuldades e ao descumprimento de ambas partes [Estado-Farc] em particular com a rota da socialização dos acordos e a incorporação das zonas de transição e alguns projetos que estão ligados a indígenas e afros guerrilheiros, põe em tela de juízo o tipo de justiça, a autonomia dos territórios e o processo de harmonia ou reencontro com suas famílias um aspecto que gera parte dos conflito interétnicos destes momentos. Ao mesmo tempo, não se pode desconhecer a vontade destes grupos que respaldaram a paz de forma crítica e autocrítica.

Por último, o caminho segue por construir a paz de baixo para cima e com os de baixo. Não se pode seguir pensando num processo que desconheça as regiões, suas necessidades, demandas e projetos locais. É o momento de dar o salto e dizer ao centro do país, às elites e aos grandes setores econômicos que desde a “periferia” se pensa, reflete e se propõem outros caminhos para fortalecer este cenário de paz que vivemos, o qual não significa uma necessidade ou uma opção mas sim uma realidade. Já para trás nem um passo, tudo adiante por uma Colômbia em paz com justiça social e dignidade a serviço das famílias, das vítimas, das mulheres e dos oprimidos de nossos tempos.

Tradução: Joaquim Lisboa Neto

Fonte: Las2Orillas

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