Poderia, mas não queria

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Por: Ernesto Villegas Poljak

Nos meus primeiros anos de repórter, quando frequentava o Palácio Federal Legislativo, naqueles já distantes anos 90, vivi e escutei muitas anedotas sobre a vida parlamentar.

Estava em desenvolvimento uma sessão conjunta do então bicameral Congresso da República, antecessor da unicameral Assembléia Nacional, quando um senador e um deputado se meteram em um caloroso debate. O senador, ancião, perdeu as estribas, ruborizou e disse palavrões contra o deputado, quem, condescendente, tratou de tranquiliza-lo apelando para sua própria juventude:  

    Não faça assim, senador. Veja que você poderia ser meu pai.

O velho lhe respondeu matador:

    Poderia, mas não queria!

A anedota, que creio recordar nos lábios de José Miguel Uzcátegui, veio a minha mente essa noite, quando li as notas do BBC Mundo e Rádio e Televisão Espanhola que – erroneamente – reportaram dissolvido o Parlamento venezuelano por obra e graça da soberaníssima Assembléia Nacional Constituinte.

Ambas baseavam-se no fato de que a Constituinte decidiu ontem fazer suas sessões no Parlamento Protocolar do Palácio Legislativo, o que erroneamente foi interpretado e/ou reportado como um desalojamento da unicameral Assembléia Nacional de seu lugar habitual de sessões.

Resulta que no Parlamento Protocolar, onde ontem houve sessão da Assembléia Constituinte, é o salão onde antigamente eram realizadas as sessões do extinto Senado da República. A Assembléia Nacional continua realizando sessões no salão onde, nos tempos da IV República, funcionava a Câmara dos Deputados. Para o cidadão comum, e também para o desprevenido ou tendencioso correspondente estrangeiro, ambos os lugares poderiam parecer o mesmo, mas não são. Cada um está localizado em um extremo (Leste e Oeste) do Palácio Federal Legislativo.

Com a entrada em vigor da Constituição Bolivariana, a de Chávez, o Senado desapareceu e seu Parlamento ficou reservado para atos protocolares. Daí seu nome atual. E a Assembléia Nacional ficou funcionando no salão de sessões da antiga Câmara dos Deputados, também conhecida – não é minha culpa – como a ‘Câmara Baixa’.

Se o jornalismo estivesse em melhores condições, os correspondentes teriam notado que a soberaníssima Constituinte aprovou ontem um decreto de harmonização de funções com os poderes constituídos, que contempla sua própria coexistência com estes – incluso obviamente o Parlamento –, ainda que deixando sentada sua subordinação frente à instância do poder originário que preside Delcy Rodríguez.    

Agora é nossa vez de divulgar até a exaustão o conteúdo desse decreto, para recolher a água por outros derramada. Ouça-se bem: a Assembléia Nacional da Venezuela não foi dissolvida pela Constituinte, embora caiba um – muito Chávez – “por agora” e também um muito senatorial “poderia, mas não queria”.

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